Pandemic – Disque 1-9-2 para emergência!
Título: Pandemic (2008)
Designer: Matt Leacock
Arte: Josh Cappel, Christian Hanisch, entre outros
Editora nacional: Devir / Galápagos (atual)
Nº de jogadores: 2 a 4
Pandemic é um jogo cooperativo onde os jogadores irão unir esforços para planejar como irão livrar o planeta de quatro doenças que estão se alastrando pelo globo e podem ser responsáveis pela extinção da vida humana. Cada personagem assume o papel de um profissional nesta busca planetária pela cura e controle das doenças, onde irão se mover pelo planeta, remover cubos que representam polos de infecção e tentar juntar evidências, simbolizadas por cartas, para achar a cura – e com sorte, até erradicar de vez a doença!
NOTA1: Pandemic teve inúmeras reimpressões e versões mundo a fora, logo iremos abordar a versão nacional da Devir/Galápagos que encontramos no Brasil.
NOTA2: É Devir ou é Galápagos? Tanto faz. Já tive em mãos ambas versões e elas são praticamente idênticas! (No caso da expansão “A Beira do Caos” ou “No Limite”, por exemplo, a única mudança é o nome).
NOTA3: Mais uma postagem por causa da pandemia de Covid-19? Sinceramente, não. Inclusive relutei em tê-la feito tempos atrás justamente por isso. Porém, como toda conscientização é necessária, podem falar que é, que não vejo problema! ...e usem álcool em gel!
Critérios
Ø Arte
Pandemic é um jogo com ares de jogo clássico, como aqueles que salvaram nossa infância de tardes tediosas com primos e amigos. É quase impossível ao colocar Pandemic numa mesa com pessoas que não são familiarizadas com o hobby, não ouvir um “Nossa, parece War!”. Mas calma, isso é um elogio pois mostra o peso de War em nossas vidas, e isso se dá apenas devido ao tabuleiro, que possui um “mapa mundi” com alguns locais de interesse marcados e em cores diferentes (cada uma representando uma região e uma doença).
Além do tabuleiro, que é bem objetivo em todos elementos e marcações, temos ainda as cartas do jogo, divididas basicamente em 4 tipos: Cartas de cidade (fundo azul), cartas de infecção (fundo verde), cartas de personagens e cartas de eventos. De uma forma geral, a arte do jogo é bem simples e objetiva, onde as cartas de cidade e de infecção se resumem em mostrar um local, além de uma ilustração para facilitar a localização da cidade no tabuleiro. Já as cartas de personagens trazem a imagem de pessoas, com uma paleta de cores bem viva, todas relacionadas com as cores dos peões respectivos. Por fim, as cartas de Eventos trazem figuras bidimensionais, como se fossem apenas as silhuetas, em tons amarelos e marrons.
De uma forma geral, a arte consegue trazer uma sobriedade ao jogo necessária devido ao tema, não sendo demasiadamente cartunesca, tampouco mórbida ou trágica. Além da arte, notamos um belo trabalho de diagramação gráfica, cuidado esse que muitas vezes se faz notar mais do que a própria ilustração, propriamente dita, presente na carta.
[tabuleiro do jogo com alguns componentes]
Ø Qualidade dos Componentes
Pandemic não nos faz lembrar de jogos de tabuleiro clássicos dos anos 80/90 apenas devido a seu tabuleiro. Ele também conta com peões de jogadores no formato de “pino”, das mais diversas cores. Porém isso não é necessariamente ruim, pois eles são maciços e com bom acabamento. Além dos peões, tabuleiro e das cartas, todos com boa gramatura, ainda contamos com outros marcadores plásticos de similar qualidade, para marcar o desenvolvimento das curas, taxas de infecção e surto e centros de pesquisa.
Um componente presente em Pandemic, que virou marca registrada do jogo (e muitas vezes quando vemos em outros jogos já falamos “Haaa, cubinhos do tipo Pandemic?”), são os cubos de doença. Tratam-se de pequenos cubos plásticos, translúcidos, de excelente qualidade, em 4 cores diferentes (no jogo base são amarelos, azuis, pretos e vermelhos). Eles são utilizados para simbolizar a presença de doença nos locais de jogo, e por mais bonitinhos que sejam, você não irá querer ver muitos no mapa durante a partida, vai por mim!
O manual do jogo é de um papel de qualidade razoável e apesar de curto, possui muito texto e muitas ilustrações. O entendimento é fácil, principalmente pois o jogo é bem simples em relação às regras.
A caixa do jogo é de uma boa qualidade, porém tem um formato retangular fino que não é tão comum, mas comporta tudo dentro. O formato estreito da caixa pode incomodar um pouquinho aqueles inveterados-arrumadores-de-prateleiras, além disso, com as expansões, não cabe tudo na caixa do jogo-base, sendo necessário usar as caixas das expansões para guarda-las.
[Peões e os cubinhos em detalhe]
Ø Curva de Aprendizagem
Pandemic sempre é citado como “um dos melhores jogos de entrada (para iniciantes) cooperativos” e não é por menos. Além de componentes familiares para pessoas iniciantes no hobby, Pandemic é um jogo fácil de explicar, fácil de jogar e fácil de ensinar, mas não tão fácil de vencer, ainda mais em uma mesa sem entrosamento. Salvo as ações de viajar utilizando o descartar de alguma carta, raramente algum jogador fica com alguma dúvida sobre o funcionamento básico do jogo, mesmo os novatos no universo dos jogos de tabuleiro.
Ø Presença de Tema
O tema do jogo é, como o nome diz, lidarmos com a pandemia de doenças, e é exatamente isso que o jogo entrega, a grosso modo. O tema está presente nas ações básicas possíveis, na forma como a mecânica “espalha os cubos de doença pelo mapa”, nos títulos e ilustrações das cartas de eventos e nas habilidades e papéis dos personagens (Cientista, Pesquisadora, Médico, Especialistas, entre outros). Obviamente, os jogadores atuam sobre o tabuleiro, mesmo dentro do tema, de uma forma ‘macro’, não existindo qualquer correlação entre doenças e características biopsicossociais e econômicas de cada localidade do mapa (mas acho que seria pedir demais também, afinal Pandemic é um jogo simples de 45 a 90minutos, não de 9horas!).
[Algumas cartas do jogo (de Infecção)]
Ø Rejogabilidade
Levando em conta apenas o jogo-base, temos apenas um modo de jogo, que sempre vai rodar de forma igual. Porém, ainda assim, temos um fator rejogabilidade relativamente alto devido às habilidades dos personagens serem todas diferentes, gerando diferentes sinergias, além de algo muito interessante que é a possibilidade de os jogadores aumentarem ou diminuírem a dificuldade. Essencialmente, Pandemic é um jogo de puzzle (quebra-cabeça) vivo, onde os jogadores devem coletar cartas das cores certas ao mesmo tempo que não deixam o tabuleiro do jogo se encher de cubinhos, dessa forma, é uma bela adição ao fator rejogabilidade podermos tornar o jogo mais fácil ou mais difícil, pois ele sempre apresentará um desafio à altura do conhecimento e experiência do jogador, mesmo ele tendo jogado incontáveis partidas.
Por outro lado, algumas pessoas podem enjoar depois de algumas partidas, por não serem tão adeptas de repetir o mesmo processo mecânico todas as vezes. Logo, tenha isso em mente se pensa em adquirir o jogo: “Eu gosto de jogar um jogo com o mesmo processo mecânico várias vezes, para sempre me desafiar a conseguir vencer maiores dificuldades?” Se sim, é seu tipo de jogo; OU “estou sempre em busca de novas experiências e novas possibilidades?” Se você é deste tipo, pode curtir o jogo, mas talvez não seja o mais ideal para adquirir!
Ø Interação
Como a maioria dos jogos cooperativos, a interação depende da mesa. É possível jogar em silêncio absoluto, cada um decidindo o que é melhor para a situação ou pode-se jogar com muita conversa e discussão. Pandemic, se jogado nos modos mais difíceis, requer essa conversa intensa. Discutir as ações é essencial para se vencer, além de ajudar a trazer o tema para a mesa, afinal cada jogador representa um especialista em alguma área necessária para se conter a pandemia global.
Como toda informação do jogo é aberta para todos jogadores, um ponto negativo, infelizmente, é a possibilidade da existência de um alpha player (aquele jogador ‘mala’ que acha que sabe mais que todos e quer mandar no que cada um deve fazer). Se você não tiver alguém assim na mesa, recomendo conversarem como se estivessem em um centro de comando mesmo! Irão precisar usar o melhor que cada um tem a oferecer para vencer. Caso tiver o ‘mala’ na mesa, talvez seja preferível pegar outro jogo na prateleira... ou não chamar o ‘alpha’ pro play mesmo!
Ø Fator Sorte
Pandemic possui impacto da sorte em duas situações, uma em maior escala e outra em menor, ambas relacionadas aos baralhos de compra de cartas. Em maior escala, temos a compra das cartas de cidade (ou ‘cartas de jogo’, segundo o manual (Devir)), pois essas cartas são as que precisamos coletar quantidades em cores específicas para achar as curas das doenças e vencer o jogo. Neste baralho, caso as cartas estejam mal embaralhadas, com uma má distribuição de cores, o jogo pode se tornar desnecessariamente mais difícil do que deveria, então recomendo ter este baralho MUITO bem embaralhado e homogeneizado em relação à distribuição das cores das cartas. Em menor escala temos o baralho de infecção, que será responsável por colocar os cubinhos nas cidades. Aqui também vale minha recomendação de deixa-lo o mais bem homogêneo possível, porém existe um certo controle sobre esse baralho, uma vez que quando surge uma carta de Epidemia, apenas o descarte é reembaralhado e colocado no topo, fazendo com que os jogadores (aqueles com boa memória) saibam quais cartas iram sair, só não sabendo a ordem.
Sobre o Fator Sorte, quero deixar claro que as observações acima impactam qualquer jogo que faz o uso de um baralho. Logo nenhum ponto levantado é um aspecto negativo em relação ao jogo Pandemic em si, apenas característico em relação à mecânica de cartas por ele adotada.
Ø Fator Estratégia
Altíssimo. Essa palavrona aí mesmo. Pandemic é um jogo onde a ‘inteligência artificial’ do jogo, apesar de simples é extremamente bem amarrada, de tal forma que se os jogadores apenas passearem pelo tabuleiro, o jogo irá acabar em poucas rodadas. Os jogadores PRECISAM estar em sincronia e tomar decisões importantes a cada rodada: Quem vai cuidar das doenças em determinada região, se uma carta de evento é melhor ser usada agora ou depois, se vale a pena descartar uma carta para criar um novo centro de pesquisa ou viajar e assim por diante.
Pandemic é um daqueles jogos que pode parecer que tudo está sob controle e BUM, em duas rodadas um caos se instaura. Ele é um jogo que trabalha muito bem (se não for o que melhor faz isso, devido inclusive à ligação com o tema) a sensação de sofrimento por luto antecipatório dos jogadores (explicando de uma forma mais simples, é aquele sentimento de que já perdemos o jogo (alguém morreu), mesmo antes dele ter acabado (deste alguém ter, de fato, morrido)). Trabalhar este sentimento, ainda mais no universo lúdico, de forma tão elegante é incrível, ainda mais de uma forma que seja possível contornar a situação e vencer o jogo, trazendo um sentimento de satisfação e alegria para os jogadores quando no final tudo dá certo. É comum terminar uma partida e os jogadores discutirem quais pontos cruciais, quais escolhas importantes e tudo mais fizeram, que foram responsáveis por leva-los à vitória.
Ø Algumas questões que sempre vêm à tona
1. Consigo jogar com crianças? Caso o tema não seja um problema (na verdade, acredito que com uma boa orientação, é inclusive de valor educacional) e os adultos na mesa consigam cooperar com a criança de tal forma que ela não se senta excluída ou sem voz ativa, é possível.
2. Por ser um cooperativo, posso jogar sozinho? Sim. Nada impede de o jogo ser jogado de forma solo, com o jogador controlando simultaneamente ao menos dois personagens diferentes.
3. Preciso das expansões? Esse tipo de questionamento é muito relativo. Depende da quantidade de vezes que irá colocar o jogo na mesa, aliado à necessidade pessoal de ter mais conteúdo para se explorar. Eu acho, particularmente, que caso sentirem a necessidade de pegar alguma, indico primeiro pegar a expansão “No Limite” (Devir) / “A Beira do Caos” (Galápagos) < NOTA: São a mesma coisa, mudou de editora, daí mudou de nome.
4. O que as expansões trazem? De uma forma geral, cada expansão agrega uma coisa nova ao jogo. Das expansões que temos já lançadas no Brasil, temos: A expansão “No Limite/A Beira do Caos”, que agrega uma nova doença, mais personagens, mais eventos e aumenta a dificuldade da partida através de novas cartas de Epidemia, além de um novo modo de jogo, que coloca um jogador no comando das doenças, um Bioterrorista, contra o restante dos jogadores; e temos a “Estado de Emergência” (Galápagos), que agrega novos minimapas ao tabuleiro, que servem como sub-regiões que os jogadores devem tratar, e cada uma representa uma área onde a doença surgiu a partir da transmissão por animais.
5. ...E aquele Pandemic: O Reino de Cthulhu? Qual ligação? Ele é um jogo a parte. Lindíssimos componentes e produção (tem miniaturas). Ele não expande ou tem qualquer compatibilidade com o Pandemic “Tradicional” e suas expansões. O nome ‘Pandemic’ que leva é devido a sua mecânica principal, que é baseada no “Pandemic de doenças”. Em Pandemic: O Reino de Cthulhu, seremos investigadores do paranormal na cidade de Arkham, que ao invés de removermos cubos de doenças, derrotamos cultistas/adoradores e ao invés de buscar a cura das doenças, fechamos portais interdimensionais, além de algumas outras mecânicas novas, inclusive rolagem de dados. O jogo é uma boa opção para quem gostou da mecânica, mas prefere o tema baseado em H.P. Lovecraft ao invés de ‘Doenças’. Porém vale salientar que Pandemic: O Reino de Cthulhu não possui uma narrativa, como é comum vermos em outros jogos com tema lovecraftiano (Mansion of Madness, Arkham Horror, Eldritch Horror e tantos outros).
6. Cabe o Pandemic ‘Tradicional’ e o do ‘Cthulhu’ na mesma coleção? Haaa, essa pergunta... Quem nunca fez ou ouviu uma pergunta assim que atire o primeiro frasco de álcool em gel! Ambos jogos tem um feeling parecido, afinal a mecânica principal é exatamente a mesma: Anda, remove algo do caminho, junta carta de cor igual. O Pandemic: O Reino de Cthulhu possui miniaturas e um fator sorte maior (por ter rolagem de dados e os personagens terem status de vida/sanidade) em relação ao Pandemic ‘Tradicional’. Isso já é uma grande diferença que ajuda a decidir qual dos dois verá mais mesa na turma de cada um. Se isso não é o bastante, posso apenas deixar minha experiência pessoal: Como tenho o Pandemic ‘Tradicional’ com expansão, acho que ele traz mais conteúdo, maior rejogabilidade, menos impacto de sorte e um tema ‘que não é geek’ para apresentar para amigos de fora do hobby, dessa forma optei por vender minha cópia do “Pandemic do Cthulhu” e ficar apenas com o ‘Tradicional’ (claro, se eu tivesse $$ sobrando, teria todos! Hehe).
7. ...E o ‘Pandemic: Resposta Rápida’? Este jogo, apesar do nome ‘Pandemic’, funciona bem diferente. Somos uma tripulação de um avião de resgate que voa pelo planeta buscando suprir necessidades da população local. Componentes e arte incríveis, como todos jogos da série. É um jogo cooperativo em tempo real de rolagem e alocação de dados. É um jogo divertido, mas a tensão da pressão do tempo pode desagradar alguns jogadores. Este cabe na coleção junto do Pandemic ‘Tradicional’ sem nenhuma dúvida, pois mecanicamente são bem diferentes.
8. ...E o ‘Pandemic Legacy’ e os demais jogos que carregam o ‘Pandemic’ no título? Tanto o Legacy como os demais Pandemics que existem no mercado importados eu não tive a alegria de joga-los, o que sei é que se tratam de propostas similares ao ‘Tradicional’, cada um com suas características, temas e adições (como o Pandemic: O Reino de Cthulhu), logo, sendo bem honesto, gasto dois recursos de mana e invoco Glória Pires: “Não sou capaz de opinar”!
Opinião Pessoal
“Pandemic é um jogo muito inteligente que se destaca em diversas categorias: Jogo de entrada; Cooperativo de regras fáceis; Tema fora do comum (fazenda, espacial ou fantasia medieval). É um excelente jogo para jogar em qualquer quantidade de jogadores, o que o torna sempre presente na mesa, mesmo para jogar sozinho. Nem sei quantas partidas já tive, e estou no aguardo para ter muito mais.” (Raphael Gurian, o Agente de Comunicações e (quase) Psicólogo de meeple amarelo)
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“Pandemic é o tipo de jogo que prende a atenção dos jogadores do início ao fim, pois é uma corrida contra o tempo para poder curar as doenças das cidades afetadas e erradica-las do mundo, antes que seja tarde demais. Apesar de não ser um jogo tão imersivo em sua história, ele faz com que os jogadores se entrosem ao máximo, para que cada jogada feita seja pensada sempre um passo adiante. Apesar de não ser um jogo de entendimento difícil em sua mecânica, é possível aumentar seu nível de dificuldade e adaptá-lo para que sempre seja desafiante ao nível de estratégia dos jogadores. Ele possui um tabuleiro simples e bem esquematizado, com peões em formato clássico e também cubos coloridos que representam a infecção das doenças espalhada pelas cidades. Não tem como ficar entediado com este jogo e sempre dá vontade de jogar mais de uma partida seguida!” (Heloisa C. Fernandes - Lola_Fernandes. A Enfermeira Veterinária e (quase) Bióloga de meeple vermelho)
Um texto de Raphael Gurian
Sociedade dos Boards
A ideia deste formato de análise não é explicar um jogo, para isso existem muitos outros textos, vídeos e etc. A finalidade do texto é fazer uma análise crítica acerca de critérios que acho importante e que muitas vezes acabam não sendo explorados em reviews de uma forma mais detalhada. Os jogos analisados não seguem qualquer critério comercial, incentivo ou pagamento, sendo escolhidos com base em fontes de vozes da minha cabeça, aliado ao fato de ter já jogado o jogo em questão muitas vezes, a ponto de me sentir confortável em opinar sobre o mesmo.
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